Investigada em operação do MPRN, mulher com salário de R$ 1.600 movimentou R$ 1,3 milhão em dois anos

Ação busca atingir o núcleo financeiro da organização criminosa Sindicato do Crime, enfraquecendo sua capacidade de financiar atividades ilícitas.
Operação Vereda Grande, do MPRN, combate esquema de lavagem de dinheiro para organização criminosa
Operação Vereda Grande, do MPRN, combate esquema de lavagem de dinheiro para organização criminosa

Resumo da Notícia

  • Operação Vereda Grande expôs movimentações de R$ 1,3 milhão feitas por investigada com renda de R$ 1.600.
  • Contas bancárias de terceiros eram usadas para lavar dinheiro do tráfico, segundo o Gaeco.
  • Investigação teve origem em transações suspeitas identificadas na operação Sentinela.
  • Entre os alvos, estão beneficiários de programas sociais e ex-presidiários sem renda formal.
  • Mandados foram cumpridos em três cidades com apoio de forças de segurança do RN e SP. Perguntar ao ChatGPT

Uma investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) escancarou o funcionamento do braço financeiro de uma organização criminosa atuante no Estado. A operação Vereda Grande, deflagrada nesta quinta-feira (31), revelou movimentações milionárias feitas por pessoas de baixa renda, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro para o Sindicato do Crime, facção conhecida no RN. Em um dos casos mais alarmantes, uma mulher com renda formal de apenas R$ 1.600 movimentou mais de R$ 1,3 milhão entre 2022 e 2024.

A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revelou que os integrantes da organização criminosa faziam uso sistemático de contas bancárias em nome de terceiros, popularmente conhecidos como “laranjas”.

Esses intermediários permitiam que valores provenientes do tráfico de drogas e de outras atividades ilícitas fossem movimentados sem chamar atenção direta das autoridades. As transações, contudo, acabaram por destoar da renda declarada dos envolvidos, gerando os indícios necessários para a operação.

Em um dos casos investigados, o principal suspeito, mesmo sem emprego formal ou renda compatível, movimentou mais de R$ 1,1 milhão no mesmo período de dois anos. Outros investigados, inclusive, recebiam benefícios sociais do Governo Federal, como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial, o que torna ainda mais gritante a discrepância entre os valores movimentados e a realidade financeira dos envolvidos.

Investigação nasceu de desdobramentos da operação Sentinela

Operação Vereda Grande, do MPRN, combate esquema de lavagem de dinheiro para organização criminosa
Operação Vereda Grande, do MPRN, combate esquema de lavagem de dinheiro para organização criminosa

A origem da operação Vereda Grande está em um relatório patrimonial produzido na operação Sentinela, também realizada pelo MPRN. Durante as apurações, uma mulher foi identificada como integrante do Sindicato do Crime. Foi a partir de uma transação superior a R$ 300 mil entre ela e outro investigado, realizada em apenas dois meses, que surgiu a necessidade de um novo inquérito.

Esse novo investigado passou a ser o foco da operação atual. Sua conta bancária apresentava características típicas de um canal de escoamento de recursos ilícitos, sendo utilizada por diversos terceiros. O Gaeco apontou, ainda, que familiares dele realizavam transações similares, compartilhando inclusive o mesmo e-mail e endereço de cadastro bancário, o que fortalece os indícios de envolvimento em rede.

Apreensões reforçam prova e podem levar a novos desdobramentos

A operação teve mandados de busca e apreensão cumpridos em Natal, Assu e São Paulo, com o apoio de policiais militares potiguares e das autoridades paulistas. Ao todo, oito mandados foram cumpridos, com a participação de dois promotores de Justiça, 11 servidores do MPRN e 20 policiais militares do RN.

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Durante o cumprimento das ordens judiciais, foram apreendidos dinheiro em espécie, aparelhos eletrônicos, cartões bancários e diversos documentos. Todo o material será analisado detalhadamente pelo Gaeco, com o objetivo de identificar a participação de novos envolvidos, rastrear outros canais de lavagem de capitais e delimitar a responsabilidade penal de cada investigado.

Segundo o Ministério Público, “a operação Vereda Grande busca atingir diretamente o núcleo financeiro da organização criminosa, de modo a enfraquecer sua capacidade de financiar crimes como o tráfico de drogas e a aquisição de armas”.

Tráfico de drogas e ocultação de capitais: núcleo financeiro na mira

O foco da ofensiva do Ministério Público é justamente o núcleo responsável por transformar dinheiro ilícito em recursos aparentemente legais. A lavagem de dinheiro — prática central da investigação — permite que o tráfico de drogas seja sustentado com infraestrutura e que o grupo criminoso permaneça operando de maneira sofisticada e resistente a ações repressivas isoladas.

Conforme as informações obtidas com exclusividade pela operação, os alvos têm baixo ou nenhum rendimento formal, mas acumulam movimentações bancárias que ultrapassam milhões de reais. O MPRN reforça que esse tipo de estrutura é vital para manter viva a organização criminosa, pois é através dessas movimentações que os recursos obtidos de maneira ilegal ganham aparência de legitimidade.

A operação Vereda Grande demonstra que o combate às facções criminosas também passa pela destruição de seus sistemas financeiros paralelos, e que a simples ausência de armas ou drogas não inviabiliza a responsabilização criminal quando se comprova a vinculação com a atividade criminosa.

Investigados viviam com aparência modesta e recebiam benefícios sociais

Entre os casos que mais chamaram atenção dos investigadores, está o de uma mulher que declarava renda de R$ 1.600 mensais, mas movimentou R$ 1,3 milhão em apenas dois anos. A discrepância entre o valor recebido e o volume de transações bancárias foi decisiva para caracterizar o indício de lavagem de dinheiro.

Além dela, outros investigados eram cadastrados como beneficiários do Auxílio Emergencial ou do programa Bolsa Família, o que acentua a suspeita de que os valores movimentados não têm origem lícita. Essas constatações reforçam o uso estratégico de pessoas em situação de vulnerabilidade para disfarçar a origem dos recursos ilegais da organização criminosa.

A operação envolveu o Gaeco do MPRN, a Polícia Militar do RN e a Polícia Civil e o Ministério Público do Estado de São Paulo, confirmando a complexidade e o alcance interestadual do esquema.

A apuração continua em andamento, e o Ministério Público não descarta novos desdobramentos ou prisões. Com o material apreendido, a expectativa é reforçar as provas já existentes e aprofundar a investigação para mapear o caminho do dinheiro ilícito e os responsáveis por sua movimentação.

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