Pipa ganha destaque negativo da BBC por ser um 'paraíso dominado por facção'

Muito além de destino paradisíaco, nos últimos anos Pipa se consolidou como um dos grandes pontos de festas do litoral nordestino. Chegada do crime à praia também é estratégica, por conta da alta circulação de turistas de alto poder aquisitivo.
Ruas de Pipa
Ruas de Pipa - Foto: Reprodução

Coqueiros, águas mornas, frutos do mar — e facções criminosas organizadas dominando a vida local. A descrição, feita por autoridades e moradores ouvidos pela BBC News Brasil, retrata com exatidão o que se passa hoje em três das praias mais famosas do Nordeste brasileiro: Pipa – na cidade de Tibau do Sul, Rio Grande do Norte; Porto de Galinhas, em Pernambuco; e Jericoacoara, no Ceará.

As três são vitrine turística de seus Estados, com ruas charmosas, festas movimentadas e turistas de alto poder aquisitivo. Mas também compartilham uma realidade paralela: a presença de facções que controlam desde o tráfico de drogas até a “ordem” nas comunidades — com regras próprias e até tribunais do crime.

Em Pipa, segundo matéria da BBC, o domínio é exercido pelo Sindicato do Crime, facção potiguar surgida em 2013 dentro do Presídio de Alcaçuz, na Grande Natal. “Só falta assinar a carteira, são organizados demais”, relatou uma fonte da Polícia Civil do Rio Grande do Norte à BBC News Brasil, explicando que há divisão formal de tarefas entre os membros da facção, com turnos de trabalho, folgas e até mensalidade paga pelos integrantes.

Funções como a do “vapor”, que carrega bolsas de drogas para venda, ou do “visão”, que atua como olheiro observando movimentações suspeitas nas esquinas, são ocupadas, em sua maioria, por jovens de áreas periféricas. Eles atuam em turnos de 12 horas, durante sete dias consecutivos, e depois folgam. “Você se sente observado por eles o tempo todo”, contou Cláudia (nome modificado para preservar sua segurança), moradora de Pipa, à reportagem.

Nos bares e comércios da vila, o assunto é muitas vezes evitado, e aqueles que ousam comentá-lo são aconselhados a silenciar. Há relatos de serviços turísticos da região controlados por criminosos, além de uma loja de drogas que chegou a funcionar em uma galeria do centro da vila — fechada após operação da Polícia Civil.

A presença da facção em Pipa também tem valor simbólico. Segundo uma fonte da Polícia, dois fundadores do Sindicato do Crime eram da região, o que explica o interesse histórico por esse território. Além disso, a intensa circulação de turistas e festas temáticas com uso de drogas sintéticas torna o lugar lucrativo para o crime.

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O próprio estatuto do grupo, obtido pela BBC News Brasil, determina normas rígidas: proíbe agressões internas, som alto, traições afetivas e o uso de substâncias como crack e rivotril (salvo com receita médica). Também orienta que conflitos sejam resolvidos internamente, sempre em busca de “paz”.

Essa estrutura, no entanto, não impede episódios de violência. Em dezembro de 2024, um triplo homicídio na Avenida Baía dos Golfinhos, a principal de Pipa, assustou moradores e turistas. Os assassinatos ocorreram em frente à delegacia e, segundo a Polícia Civil do RN, foram motivados por disputa entre facções. “Um novo grupo criminoso queria entrar em Pipa, mas durou pouco a investida”, afirmou uma fonte ouvida pela reportagem. O Sindicato do Crime permanece dominante.

Em 2024, a Polícia do RN prendeu 97 pessoas ligadas à organização e estima prejuízo de R$ 1,3 milhão em apreensões de drogas. Mesmo assim, moradores dizem que há facilidade de reorganização do grupo. “Quando a polícia desmantela, amanhã já tem outro líder”, comentou Cláudia.

A Polícia Civil afirmou em nota que tem atuado no combate a organizações criminosas, destacando que, no primeiro semestre, houve apenas dois homicídios em Tibau do Sul. A corporação também alertou: “Generalizações que associem a localidade ao domínio de grupos criminosos devem ser rechaçadas”.

Pipa não é caso isolado

A BBC News Brasil também mostrou que a realidade em Pipa é compartilhada por Porto de Galinhas e Jericoacoara — ambas sob controle de facções locais ou de grandes organizações como o Comando Vermelho.

Em Jericoacoara, o assassinato de um adolescente paulista de 16 anos, em dezembro de 2024, trouxe repercussão nacional. Segundo a Polícia Civil do Ceará, ele foi confundido com integrante de uma facção rival, e o gesto que fez ao tirar uma foto pode ter sido interpretado como um sinal de outra organização. “Estava com o pai na praça e resolveu voltar sozinho para a pousada. No caminho, foi abordado por esse grupo de pessoas que atribuíram a ele, ninguém sabe por qual motivo, a participação nessa organização criminosa”, disse o diretor da Polícia Civil, Marcos Aurélio França.

A praia é controlada pelo Comando Vermelho, que se estabeleceu na região entre 2016 e 2017. José, morador de Jijoca de Jericoacoara, afirmou à reportagem: “A população já se acostumou com essa lei do crime”.

Já em Porto de Galinhas, o controle é exercido pela Trem Bala, também chamada de Comando do Litoral Sul. O grupo instalou câmeras próprias em comunidades como Salinas, Socó e Pantanal, e obriga agentes públicos a se identificar para entrar nas áreas dominadas. “São baixos [os homicídios] por não haver mais disputa entre grupos, o que reduz as mortes. Não é porque é seguro, é porque não tem mais outra facção para disputar”, disse uma fonte policial.

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