Saúde mental vira alerta nas escolas do RN após 136 visitas domiciliares

Por meio de visitas domiciliares, estratégia de busca ativa do Instituto Cultiva aciona rede intersetorial de saúde e assistência social para garantir a permanência dos estudantes.
Relatório mostra como crise familiar e saúde mental prejudicam alunos no RN
Relatório mostra como crise familiar e saúde mental prejudicam alunos no RN - Crédito: Programa Comunidades Educadoras

Sinais de sofrimento psicológico, instabilidade familiar e insegurança alimentar aparecem entre os principais fatores que dificultam a aprendizagem de crianças e adolescentes da rede pública do Rio Grande do Norte. É o que mostra o relatório analítico de 2025 do programa Comunidades Educadoras, idealizado pelo Instituto Cultiva, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer (SEEC/RN).

O levantamento aponta que 26% dos alunos acompanhados demonstraram sinais claros de adoecimento psíquico, enquanto 21% enfrentam dificuldades diretas que afetam o aprendizado. A suspeita de sofrimento mental motivou 136 visitas domiciliares realizadas pelo programa. Entre as principais queixas registradas estão sintomas associados à ansiedade, com 39,8%, e à depressão, com 13,6%.

O relatório também identificou sinais de insegurança alimentar severa em 94 famílias, além de outras situações de vulnerabilidade, como fragilidade de renda, violência familiar, abuso sexual e abandono. As ações foram desenvolvidas em Natal, Macaíba, Extremoz, Parnamirim, São Gonçalo e Ceará-Mirim, com foco em famílias que estavam distantes da assistência do poder público.

Como o programa atua nas famílias dos estudantes?

O Comunidades Educadoras organiza articuladores comunitários para visitar familiares de estudantes que apresentam sinais de vulnerabilidade gerados por crises no ambiente familiar. A proposta é identificar demandas sociais que ultrapassam os muros da escola e acionar os serviços públicos necessários para garantir melhores condições de desenvolvimento educacional.

A atuação começa a partir de alertas emitidos pelas próprias escolas. Depois disso, o programa faz a ponte entre os núcleos familiares e as redes municipais e estaduais de Saúde e Assistência Social, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

Na prática, a estratégia busca acelerar encaminhamentos que muitas vezes ficam parados, como diagnósticos clínicos pendentes, cuidados terapêuticos e apoio pedagógico. O objetivo é evitar que problemas sociais, emocionais e familiares continuem se refletindo no rendimento, na frequência e na permanência dos estudantes na escola.

Os números mostram que parte dos obstáculos enfrentados pelos estudantes não está apenas dentro da sala de aula. O desempenho escolar, segundo o relatório, é diretamente afetado por fatores como sofrimento mental, insegurança alimentar, ausência de acompanhamento adequado e crises familiares.

A presença de 136 visitas domiciliares motivadas por suspeita de sofrimento mental indica que a escola tem funcionado como ponto de identificação de situações que exigem resposta mais ampla do poder público. Os percentuais de ansiedade e depressão registrados no mapeamento reforçam a necessidade de olhar para a saúde mental como parte do debate educacional.

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O mesmo ocorre com a insegurança alimentar severa identificada em 94 famílias. Quando a vulnerabilidade atinge esse nível, o problema deixa de ser apenas social e passa a interferir diretamente na aprendizagem, na concentração, na presença em sala e na capacidade do estudante de manter uma rotina escolar estável.

Escola vira ponto central da rede de proteção

A diretriz do Comunidades Educadoras coloca a escola no centro da rede de proteção da criança e do adolescente. O modelo parte do reconhecimento de que aprendizagem não depende apenas do estudante, mas também da corresponsabilidade entre família, comunidade, escola e Estado.

Esse formato integrado de gestão busca reduzir os índices de evasão e abandono escolar no Rio Grande do Norte. A lógica é simples: quando a escola identifica sinais de vulnerabilidade e consegue acionar a rede de apoio, o estudante tem mais chance de permanecer vinculado ao ambiente escolar.

Em vez de tratar baixo rendimento e faltas apenas como problemas disciplinares ou pedagógicos, o programa procura entender o que acontece fora da escola e como essas condições chegam à sala de aula. Essa mudança de abordagem é um dos pontos centrais do relatório.

Caso em Natal mostra impacto do acompanhamento individualizado

Na Escola Estadual Maria Ilka, em Natal, o atendimento às necessidades de uma estudante com Transtorno do Espectro Autista (TEA) mobilizou o corpo docente. Segundo o relatório, os professores organizaram um revezamento estratégico para garantir a permanência da aluna na escola.

O acompanhamento individualizado e o suporte emocional também foram apontados como fatores importantes para a retomada do interesse pelos estudos entre jovens atendidos pelo programa.

Essa mudança foi relatada por Maria, mãe do estudante Wallace. “Ele antigamente não ligava pra estudar. Agora ele mesmo pede o celular pra pesquisar, fazer atividade”, contou.

A melhora surpreendeu a família. “Ele disse: ‘Mainha, passei! Eu não acreditei. Nem ele acreditava”.

O relatório do Comunidades Educadoras evidencia que saúde mental, renda, alimentação, violência e abandono não são temas separados da educação. Quando essas vulnerabilidades se acumulam, a escola sente o impacto diretamente no rendimento, na frequência e no vínculo dos estudantes com os estudos.

Ao acionar CRAS, CREAS, serviços de saúde e assistência social, o programa tenta transformar a escola em uma porta de entrada para a rede de proteção. A proposta não substitui a responsabilidade do Estado, mas organiza caminhos para que as demandas identificadas em sala de aula cheguem aos órgãos capazes de responder a elas.

No Rio Grande do Norte, os dados mostram que enfrentar a evasão e o abandono escolar exige mais do que reforço pedagógico. Também passa por reconhecer o sofrimento psíquico, a insegurança alimentar e a vulnerabilidade familiar como parte concreta da realidade educacional.