Acidentes de trânsito custam R$ 8 milhões por ano ao SUS no RN; motos concentram maioria dos casos

Os acidentes envolvendo motociclistas responderam por 74,9% das internações no período, com 33.344 atendimentos a condutores e passageiros de motos na rede pública.
Passageira de moto por aplicativo morre em acidente na BR-101 em Parnamirim
Passageira de moto por aplicativo morre em acidente na BR-101 em Parnamirim - Crédito: Reprodução

Os acidentes de trânsito impõem ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte uma conta milionária e recorrente. Entre 2015 e 2025, foram registradas 44.503 internações hospitalares por acidentes de transporte no estado, com impacto financeiro total de R$ 84 milhões. Nos últimos cinco anos, a média anual de gastos chegou a R$ 8 milhões.

Os dados fazem parte de levantamento do Grupo IAG Saúde, elaborado com informações do DataSUS e do Valor Saúde Brasil. O recorte expõe um problema que vai além das estatísticas de trânsito: cada colisão grave, queda ou atropelamento que termina em internação também pressiona leitos, equipes médicas, cirurgias, reabilitação e recursos públicos que poderiam ser disputados por outras áreas da saúde.

O alerta fica ainda mais forte quando se observa o peso das motocicletas. De cada quatro internações hospitalares por acidentes de transporte no SUS do RN, aproximadamente três envolveram condutores ou passageiros de motos. No acumulado da década, esse grupo respondeu por 33.344 atendimentos, o equivalente a 74,9% do total.

Motociclistas puxam a maior parte das internações

A participação dos motociclistas é o dado mais sensível do levantamento. Entre 2015 e 2025, as hospitalizações envolvendo esse grupo geraram R$ 61.851.512 em despesas pagas pelo SUS aos hospitais pelos procedimentos realizados.

Esse valor representa 73,6% de todos os gastos registrados no recorte analisado com vítimas de acidentes de trânsito. A remuneração média por internação de motociclista foi de R$ 1.854,95, pouco abaixo do custo médio global da década, calculado em R$ 1.889,08.

O crescimento da demanda por leitos também chama atenção. Em 2015, foram 1.610 internações de motociclistas. O número subiu até atingir o pico em 2023, com 4.381 registros. Em 2025, último ano fechado do levantamento, ainda foram contabilizadas 4.004 internações de condutores e passageiros de motos.

Na prática, os números indicam que o trauma no trânsito, especialmente envolvendo motos, virou uma pressão permanente sobre a rede pública. Não se trata de um custo pontual ou de um episódio isolado, mas de uma despesa que se repete ano após ano.

Série histórica mostra alta no volume de atendimentos

O levantamento também revela avanço expressivo no total de internações por acidentes de transporte no estado. Em 2015, o SUS registrou 2.394 internações, com custo de R$ 5,3 milhões. Quatro anos depois, em 2019, o valor chegou ao maior patamar financeiro da série: R$ 9,2 milhões, resultado de 4.325 internações.

O maior volume de atendimentos ocorreu em 2023, quando o sistema processou 5.641 internações. Já em 2025, foram 4.860 internações hospitalares, ao custo de R$ 8,1 milhões. Nesse último ano, o valor médio de remuneração por internação ficou em R$ 1.678,91.

Cobertura relacionadaCAPS do RN terão suporte especializado para casos ligados a jogos e apostas

A curva mostra que, mesmo quando o gasto anual não supera o pico financeiro de 2019, a demanda segue alta. O impacto aparece tanto no orçamento quanto na ocupação da rede hospitalar.

Mortes dentro dos hospitais reforçam gravidade do problema

Além do custo financeiro, os acidentes deixam um rastro de mortes nas unidades de saúde. Entre 2015 e 2025, a taxa média de mortalidade hospitalar por acidentes de transporte no RN foi de 2,3%.

Em 2025, a mortalidade geral ficou em 2,2%, com 108 falecimentos registrados entre pessoas internadas por esse tipo de ocorrência.

No recorte dos motociclistas, o levantamento contabilizou 663 mortes dentro das unidades de saúde ao longo do período analisado. O total corresponde a 64,1% de todas as mortes hospitalares por acidentes de transporte registradas pelo sistema. A taxa média de mortalidade para motociclistas hospitalizados ficou em 2,0%.

O ano com maior número de mortes de motociclistas em ambiente hospitalar foi 2020, quando 87 vítimas faleceram após internação.

A despesa hospitalar é apenas a parte mensurável do impacto imediato sobre o SUS. Os dados enviados mostram o valor pago pelos procedimentos realizados, mas a gravidade do problema também está no efeito acumulado sobre a rotina da saúde pública.

Quando uma vítima de acidente de trânsito precisa de internação, a rede mobiliza leitos, profissionais, exames, cirurgias, medicamentos e acompanhamento. Em casos graves, o atendimento pode se estender por dias ou semanas. Para muitos pacientes, o fim da internação não significa fim das consequências.

O levantamento não detalha custos indiretos, afastamentos, sequelas ou reabilitação, mas os números de internações e mortes já indicam um cenário de alerta. No RN, o trânsito segue produzindo uma demanda hospitalar alta, cara e concentrada principalmente em motociclistas.

Por que os dados acendem alerta no RN?

O ponto central do levantamento não é apenas o valor de R$ 84 milhões em dez anos. O que preocupa é a combinação entre volume crescente de internações, peso das motocicletas e permanência de gastos elevados ao longo da série histórica.

Em 2025, mesmo depois do pico de atendimentos de 2023, o SUS ainda registrou quase 4,9 mil internações por acidentes de transporte no Rio Grande do Norte. Isso significa que o problema continua ativo e com forte impacto sobre a rede pública.

A conta final é dupla: o Estado paga pelo atendimento hospitalar, e a população paga com mortes, sequelas, afastamentos e famílias atingidas por acidentes que, em muitos casos, poderiam ser evitados com prevenção, fiscalização, educação no trânsito e uso adequado de equipamentos de segurança.