Polícia Civil do RN atua com 34% do efetivo e aprovados pressionam por convocação

A cobrança por novas nomeações ocorre em um cenário de preocupação com a segurança pública no estado. Relatório elaborado pela Secretaria de Segurança Pública e enviado ao Ministério da Justiça em 2025 aponta 15 cidades potiguares como áreas de “alta vulnerabilidade” ao crime organizado.
Concursados da Polícia Civil cobram nomeação para reduzir sobrecarga no interior do RN
Crédito: SECOMS/PCRN

Delegacias da Polícia Civil no interior do Rio Grande do Norte atendem mais de um município ao mesmo tempo, em uma estrutura que, segundo concursados da corporação, amplia a sobrecarga de delegados e equipes. O estado tem 167 municípios e 105 delegacias localizadas no interior, o que faz com que algumas unidades dividam estrutura física, servidores e comando policial entre duas, três ou até quatro localidades.

A situação é apontada por um grupo de 270 concursados da Polícia Civil do RN, que aguarda nomeação determinada pela Justiça para ajudar a reduzir um déficit estimado em 3 mil vagas no efetivo da instituição. O prazo final para cumprimento da sentença está marcado para 14 de junho.

Atualmente, a Polícia Civil potiguar atua com apenas 34% do efetivo. A última nomeação feita pelo Governo do Estado, em abril, preencheu somente vacâncias provocadas por aposentadoria, exoneração, demissão ou falecimento de servidores anteriores.

No interior, o acúmulo de municípios sob uma mesma delegacia afeta diretamente o atendimento à população e a rotina dos policiais civis. A crítica dos concursados é que o modelo atual não permite uma resposta adequada diante da demanda de investigações, registros, diligências e acompanhamento de ocorrências em diferentes cidades.

Cada delegacia abarca de dois a quatro municípios, o que torna impossível ser feito um bom trabalho, visto que cada delegado acumula todas essas delegacias ao mesmo tempo no interior do estado. Dessa forma, até os que assumiram recentemente já apresentam sintomas de estafa e adoecimento por causa desse déficit de pessoal”, afirma Richard Wikliff, classificado para o cargo de escrivão no Edital nº 01/2020.

A fala resume o principal ponto levantado pelos aprovados: o problema não se limita à ausência de novas nomeações, mas atinge a capacidade diária de funcionamento da Polícia Civil em regiões onde uma única equipe precisa dar conta de vários municípios.

Concurso tem 180 classificados sem nomeação

Dos 270 concursados que aguardam avanço no processo, 180 classificados ainda não foram nomeados. Outros aproximadamente 90 esperam a abertura do Curso de Formação Profissional, etapa obrigatória do certame, com duração média de três meses.

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A validade da prova termina em outubro de 2026, o que aumenta a preocupação dos aprovados. O receio é que, sem a abertura do curso em tempo hábil, parte dos candidatos não consiga concluir a etapa necessária para assumir os cargos.

Segundo Thalita Mendonça, aprovada no concurso para delegada da Polícia Civil, a realização do curso já teria condições de ocorrer, inclusive por haver previsão orçamentária e estrutura disponível na Cidade da Polícia, complexo inaugurado em dezembro de 2025 que reúne a sede da instituição e unidades estratégicas.

Não há impedimento estrutural para a realização do curso. O orçamento já está previsto, a própria Polícia Civil dispõe de profissionais capacitados para atuar como instrutores e a instituição já sinalizou interesse na realização dessa etapa. O que falta é apenas a decisão do Governo para viabilizar a convocação. A urgência é evidente, pois o concurso se aproxima do prazo de validade, enquanto o Rio Grande do Norte enfrenta um grave déficit de efetivo na Polícia Civil. A realização do curso e o ingresso desses novos servidores representam um reforço importante para melhorar o atendimento à população e fortalecer a segurança pública em todo o estado”, destaca.

Vulnerabilidade ao crime organizado aumenta pressão por reforço

A cobrança por novas nomeações ocorre em um cenário de preocupação com a segurança pública no estado. Relatório elaborado pela Secretaria de Segurança Pública e enviado ao Ministério da Justiça em 2025 aponta 15 cidades potiguares como áreas de “alta vulnerabilidade” ao crime organizado.

O documento citado pelos concursados indica que tanto o litoral quanto o interior do Rio Grande do Norte são usados como ponto de partida para crimes como tráfico de drogas, contrabando de mercadorias, escoamento de cargas e movimentações financeiras milionárias.

Para os aprovados, esse contexto reforça a necessidade de recomposição do efetivo. A lógica é simples: se a demanda cresce e a presença do crime organizado se espalha por diferentes regiões, a Polícia Civil precisa de mais servidores para investigar, atender ocorrências e manter presença institucional nos municípios.

Acúmulo de municípios sobrecarrega policiais civis no interior do RN
Acúmulo de municípios sobrecarrega policiais civis no interior do RN

A discussão envolve três frentes ao mesmo tempo: o cumprimento da decisão judicial, a validade do concurso e a capacidade operacional da Polícia Civil no interior. Sem novas nomeações, delegacias continuam dividindo atendimento entre municípios, enquanto candidatos aprovados permanecem à espera de convocação.

O caso também expõe um problema estrutural. A existência de 105 delegacias no interior não significa, por si só, atendimento pleno em todos os municípios. Quando uma mesma autoridade policial acumula várias unidades, o serviço tende a ser pressionado por deslocamentos, volume de ocorrências e falta de pessoal.

Com o prazo judicial marcado para 14 de junho e a validade da prova prevista para outubro de 2026, os concursados cobram uma decisão do Governo do Estado para viabilizar as nomeações e abrir o Curso de Formação Profissional dos candidatos que ainda dependem dessa etapa.