Resumo da Notícia
O Rio Grande do Norte enfrenta um aumento alarmante nos diagnósticos de contaminação por toxinas marinhas neste ano. A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) emitiu um alerta epidemiológico urgente após registrar uma alta de 60,2% nos casos de ciguatera apenas no primeiro semestre de 2026, quando comparado com todo o acumulado do ano de 2025.
Até o dia 11 de junho de 2026, o estado potiguar computou 141 ocorrências da doença, superando com larga margem os 88 casos notificados no ano anterior.
A ciguatera é uma intoxicação alimentar severa desencadeada pelo consumo de peixes que carregam uma neurotoxina conhecida como ciguatoxina. Segundo dados oficiais da Subcoordenadoria de Vigilância Epidemiológica (Suvige), essa substância é considerada extremamente perigosa porque é completamente invisível a olho nu, não altera a cor, o sabor, a textura ou o odor do pescado e, o mais preocupante, é altamente resistente ao calor e ao frio. Isso significa que a toxina permanece totalmente ativa no peixe mesmo após processos culinários ou industriais comuns, como cozimento, fritura, congelamento prolongado ou salga.
Quem são as principais vítimas e onde ocorrem as contaminações
O avanço da doença gera um impacto direto na saúde coletiva do estado e acende o alerta para consumidores e comerciantes. O mapeamento estatístico detalhado pela Sesap indica que a maioria silenciosa das infecções ocorre em ambientes privados. Do total de casos confirmados, 64% das intoxicações ocorreram após o consumo do pescado em ambiente doméstico. O restante dos episódios, correspondente a 36%, foi registrado após refeições feitas em restaurantes, barracas de praia e estabelecimentos comerciais similares.
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No que diz respeito ao perfil demográfico das pessoas atingidas, o público feminino lidera as estatísticas de contaminação. As mulheres representam 59,3% das ocorrências registradas no estado. A incidência também se concentra em faixas etárias específicas, com ampla predominância de adultos:
- Adultos entre 20 e 59 anos: Concentram 61,95% das notificações de intoxicação;
- Idosos com 60 anos ou mais: Correspondem a 23,9% dos registros totais de atendimento.
Geograficamente, a capital potiguar é o epicentro do problema. Natal concentra mais da metade de todas as notificações estaduais, com 52,21% dos registros de atendimento médico. No mapa de calor do monitoramento da vigilância sanitária, os municípios litorâneos e limítrofes aparecem logo em seguida com índices relevantes de contaminação, com destaque para Touros, Ceará-Mirim, Nísia Floresta, Parnamirim e Extremoz.
As espécies de peixes vilãs e o histórico no RN
O histórico epidemiológico do Rio Grande do Norte aponta que a ciguatera tem apresentado uma evolução crônica nos últimos anos. Desde 2022, o estado potiguar acumula 259 casos notificados oficialmente, que foram distribuídos e investigados em 46 surtos de contaminação alimentar. Desse montante registrado pelas autoridades, 113 infecções foram confirmadas de forma laboratorial ou clínica, e o monitoramento já confirmou o registro de dois óbitos relacionados a complicações severas causadas pela toxina. Todos esses registros constam do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
A apuração de saúde pública do estado revela que espécies predadoras de topo de cadeia alimentar marinha são as principais acumuladoras da substância no organismo. O peixe conhecido popularmente como Bicuda (ou Barracuda) é o grande vilão do monitoramento epidemiológico local, sendo responsável por 45,13% de todas as infecções devidamente confirmadas e documentadas pela saúde.
Após a Bicuda, o monitoramento oficial da Sesap lista outros peixes comuns na costa norte-rio-grandense que também apresentaram amostras contaminadas e exigem cuidado redobrado dos consumidores:
- Arabaiana;
- Dourado;
- Cioba;
- Pescada Branca;
- Galo do Alto;
- Pargo;
- Sirigado (ou Robalo).
A presença recorrente de relatos da doença gera um forte impacto socioeconômico regional. Desde o mês de março, o avanço e a ampla divulgação das notícias sobre a ciguatoxina começaram a impactar as peixarias, feiras livres e o mercado de pescados no estado. A retração e o receio das famílias em consumir peixes dessas espécies provocaram uma queda nas vendas de pescadores locais e distribuidores de pescado em várias regiões praianas.
Da diarreia à inversão térmica sensorial
A manifestação inicial da ciguatera costuma apresentar sinais gastrointestinais típicos de qualquer intoxicação alimentar leve. Em um intervalo que varia de poucos minutos até 48 horas após o consumo da carne do peixe, o paciente pode apresentar cólicas fortes, diarreia persistente, enjoos frequentes e vômitos.
Entretanto, o diferencial mais perigoso desta síndrome está nos sintomas neurológicos, que são altamente debilitantes, prevalentes e podem persistir no organismo do paciente por meses ou até anos. Entre as queixas mais relatadas por quem contraiu a toxina estão:
- Coceira corporal intensa e persistente;
- Dores musculares agudas e sensação de fraqueza extrema;
- Gosto metálico incômodo na boca e dormência na língua e nas extremidades das mãos e pés;
- Tontura, fadiga crônica e fortes dores de cabeça;
- Inversão térmica sensorial: O sintoma neurológico mais característico, em que a pessoa tem a percepção térmica totalmente alterada (o contato com a água fria ou superfícies geladas provoca queimação e dor, enquanto superfícies quentes são sentidas como frias).
Em quadros clínicos que evoluem de forma grave, o sistema circulatório do paciente também é afetado. Os doentes passam a apresentar hipotensão (pressão arterial muito baixa) e bradicardia (frequência cardíaca lenta), necessitando de imediata internação e monitoramento hospitalar contínuo.
Como proceder e recomendações oficiais
Não existe um antídoto ou vacina desenvolvida para neutralizar a ciguatoxina no organismo de forma rápida. O atendimento médico hospitalar oferecido ao paciente é de suporte clínico e voltado ao alívio e controle dos sintomas individuais de cada caso. Diante disso, a Sesap reforça uma lista de cuidados indispensáveis para a proteção da população:
- Procure atendimento imediato: Caso sinta qualquer desconforto estomacal, dores musculares ou formigamento após comer peixe, vá imediatamente a um posto de saúde ou unidade de pronto atendimento e informe ao médico o consumo de pescado nas últimas 48 horas.
- Identifique a procedência e a espécie: Evite comprar peixes sem registro ou de pesca artesanal que não possuam notas fiscais de origem, selo de inspeção ou procedência rastreável.
- Preserve amostras do pescado: Caso o prato consumido resulte em sintomas de mal-estar, acondicione as sobras do peixe cru ou preparado em um saco plástico limpo, congele o material imediatamente e entre em contato com a Vigilância Sanitária para posterior análise.
- Atenção nas compras: Evite o consumo das espécies mais propensas à toxina, especialmente a Bicuda, quando houver histórico ou rumores de surtos na região costeira onde o pescado foi capturado.
Informações adicionais sobre os cuidados básicos de saúde e prevenção de doenças transmitidas por alimentos podem ser obtidas diretamente pelo portal institucional do Ministério da Saúde. Para orientações sobre denúncias de pescados impróprios à venda, os moradores do estado devem procurar as secretarias de saúde municipais de suas respectivas cidades.
