A governadora Fátima Bezerra (PT) usou entrevista à Rádio Universitária para tentar fixar uma leitura política sobre a disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte: de um lado, segundo ela, estaria a pré-candidatura de Allyson Bezerra (União), apresentada como novidade, mas sustentada por grupos tradicionais; do outro, o projeto governista de Cadu Xavier (PT), associado por Fátima à gestão estadual, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e à continuidade de obras e programas no RN.
A fala mais dura da governadora foi direcionada ao ex-prefeito de Mossoró. Fátima afirmou que Allyson tenta ocupar o espaço do “novo”, mas reuniu em torno de sua pré-candidatura partidos e lideranças com longa presença na política potiguar.
“Não me venha com essa história. O novo reuniu em torno de si as oligarquias todas do Estado. É uma candidatura tutelada pelas oligarquias aqui do estado do Rio Grande do Norte”, afirmou a governadora.
A crítica abre uma nova fase no discurso governista. Fátima não atacou apenas o nome de Allyson, mas a composição do palanque adversário. A estratégia é apresentar a candidatura do ex-prefeito como expressão de um arranjo conservador e tradicional, enquanto tenta dar a Cadu Xavier a imagem de gestor técnico, ligado ao governo Lula e aos resultados administrativos reivindicados pela atual gestão.
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A pré-candidatura de Allyson Bezerra reúne, até agora, o apoio de oito partidos: União Brasil, PP, MDB, PSD, Republicanos, Solidariedade, PRD e Avante.
No grupo político liderado pelo ex-prefeito de Mossoró, estão nomes como José Agripino Maia (União), ex-senador e ex-governador; Walter Alves (MDB), vice-governador; Garibaldi Alves Filho (MDB), ex-governador, ex-senador e ex-ministro; Zenaide Maia (PSD), senadora; Robinson Faria (PP), deputado federal e ex-governador; João Maia (PP), deputado federal; e Benes Leocádio (União Brasil), deputado federal.
É essa composição que Fátima tenta usar para desmontar o discurso de renovação do adversário. Na avaliação da governadora, o bloco reunido em torno de Allyson expressa “o que existe de mais conservador, de mais atrasado” na política estadual.
“Ou seja, é um projeto que vai significar o quê? Voltar ao passado, aqueles governos de perfil oligárquico, perfil tradicional, governos que eram muito mais voltados para atender os interesses de grupos do que os interesses exatamente da coletividade como um todo”, declarou.
O argumento político de Fátima é claro: transformar a amplitude partidária de Allyson, que poderia ser vista como força eleitoral, em ponto de desgaste. Para a governadora, o apoio de lideranças tradicionais contradiz a ideia de mudança defendida pelo ex-prefeito.
Prefeitos aliados que migraram para Allyson viram ponto de pressão
A entrevista também passou pelo movimento de prefeitos que estiveram próximos da gestão estadual e decidiram apoiar Allyson. Fátima citou Dr. Tadeu (PSDB), prefeito de Caicó, e Marianna Almeida (PSD), prefeita de Pau dos Ferros.
A governadora disse respeitar as escolhas, mas classificou as adesões como um equívoco. Sobre Tadeu, afirmou que ele tem uma trajetória mais próxima do campo progressista e de centro-esquerda. No caso de Marianna, disse enxergar uma liderança jovem que, na avaliação dela, acabou se vinculando a um projeto conservador.
Ao ser questionada se considerava as movimentações uma traição, Fátima evitou adotar esse termo.
“Eu não vou tratar nesses termos. Agora, lamento, acho que é um equívoco”, afirmou.
A resposta mostra o cuidado da governadora em não romper completamente pontes políticas, mas também deixa claro que o Palácio de Lagoa Nova vê essas adesões como perdas relevantes no tabuleiro municipal. Caicó e Pau dos Ferros têm peso regional e funcionam como vitrines importantes para qualquer projeto estadual.
Cadu Xavier é apresentado como gestor técnico e herdeiro da administração
Na tentativa de contrapor Allyson ao campo governista, Fátima apresentou Cadu Xavier como um nome de perfil técnico. Segundo a governadora, ele é servidor de carreira, auditor fiscal e teve atuação importante nas áreas de tributação e finanças desde o início da gestão, em 2019.
Fátima afirmou que Cadu participou do enfrentamento do cenário encontrado no começo do governo, quando o Estado lidava com salários atrasados, dificuldades fiscais e serviços públicos em crise. Ela disse que o ex-secretário ajudou a tirar o Rio Grande do Norte da situação que chamou de “massa falida”.
A governadora também afirmou estar “muito confiante” no que chamou de “time de Lula” no RN. Segundo ela, a pré-campanha governista avançou com o lançamento de uma plataforma colaborativa para a construção do programa de governo. O ato, realizado na terça-feira (2), reuniu mais de 20 prefeitos e representantes de vários segmentos da sociedade.
Fátima disse ainda que o presidente nacional do PT, Edinho Silva, participou do evento e enviou mensagem elogiando a mobilização. De acordo com a governadora, Edinho saiu do Rio Grande do Norte mais confiante com o projeto de Cadu e levaria essa avaliação ao presidente Lula.
Pesquisa AtlasIntel entra no discurso de crescimento de Cadu
Fátima também citou a pesquisa AtlasIntel divulgada na semana anterior. Ela disse não ter se surpreendido com os números que colocaram Cadu em posição favorável, afirmou reconhecer a credibilidade do instituto e declarou perceber, nas ruas, uma popularização crescente do nome do pré-candidato petista.
“Eu estou vendo exatamente o nome de Cadu se popularizando cada vez mais. As pessoas hoje, quando se encontram comigo e Cadu não está comigo, a primeira coisa que elas me perguntam agora é: governadora, cadê Cadu?”, afirmou.
A frase sintetiza a aposta política de Fátima: transformar Cadu, ainda em processo de ampliação de conhecimento público, no nome capaz de representar a continuidade da gestão estadual e o alinhamento com Lula. A governadora tenta associar o pré-candidato a resultados administrativos, obras estruturantes, indicadores sociais e políticas de desenvolvimento econômico.
Ao fazer o balanço de sua administração, Fátima citou o desempenho do Rio Grande do Norte no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Segundo ela, o Estado apareceu em primeiro lugar no Nordeste, superando o Ceará.
A governadora também afirmou que o RN teria sido o primeiro estado nordestino a superar a relação entre empregos com carteira assinada e beneficiários do Bolsa Família. Ela relacionou esses dados à política de incentivos fiscais e tributários adotada em seu governo.
Um dos exemplos usados foi a modernização do antigo Proadi, substituído pelo Proedi. Fátima disse que Cadu “pilotou” esse processo e que a mudança ampliou o número de indústrias beneficiadas. Segundo a governadora, até 2019, havia entre 116 e 119 empresas atendidas pelo programa de incentivos. Hoje, de acordo com ela, são 367 empresas.
Fátima também destacou a inclusão de setores antes não contemplados, como reciclagem e sal. Para a governadora, essa ampliação ajudou a atrair e manter empresas no Rio Grande do Norte, sobretudo fora da região metropolitana, com impacto na geração de empregos.
Esse bloco da entrevista serviu para sustentar uma ideia central: a de que Cadu não seria apenas um nome escolhido pelo PT, mas alguém vinculado diretamente ao funcionamento econômico e fiscal da gestão.
Fátima usa ética na gestão como linha de contraste
Outro eixo da fala da governadora foi a defesa da ética na administração pública. Fátima afirmou que honestidade, decência e zelo com o dinheiro público são princípios inegociáveis de seu governo.
Ela disse que, em quase oito anos de gestão, a Polícia Federal não bateu à porta do Governo do Estado e que seus secretários não respondem a acusações de propina, tráfico de influência ou desvio de recursos.
A governadora usou esse ponto para se diferenciar de administrações anteriores e de adversários políticos. Ao ser lembrada pelos entrevistadores de operações em governos passados, afirmou que se sente com o dever cumprido.
Fátima também mencionou investigações relacionadas à Prefeitura de Mossoró, sem detalhar os casos, e disse que os desdobramentos estão em curso.
Álvaro Dias é associado ao bolsonarismo
Além de Allyson, Fátima mirou o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL), também pré-candidato ao Governo. Para ela, Álvaro representa um projeto ligado ao bolsonarismo e à extrema direita.
A governadora afirmou que essa candidatura carrega um campo político associado ao autoritarismo, à ameaça à democracia e à soberania nacional. Nesse trecho, relacionou a família Bolsonaro à nova ameaça de tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
Segundo Fátima, esse tipo de articulação pode prejudicar diretamente a economia do Rio Grande do Norte. Ela citou os setores de pesca e sal como exemplos de áreas sensíveis ao impacto de medidas desse tipo.
PSDB pode indicar vice, mas decisão caberá ao partido
Fátima também voltou a defender a presença do PSDB na aliança governista. Ela confirmou que a reunião com o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira (PSDB), estava marcada, mas foi adiada para a semana seguinte por causa de um compromisso familiar do deputado.
A governadora disse que deseja ver o PSDB integrado à chapa de Cadu. Segundo ela, o partido poderia indicar o nome para a vice, preferencialmente uma mulher.
Fátima afirmou que sua aliança com Ezequiel existe há oito anos e não é apenas institucional, apesar de ele presidir a Assembleia Legislativa e ela comandar o Executivo. Segundo a governadora, há também uma relação política, e a liderança de Ezequiel justifica a tentativa de atrair o PSDB para o palanque governista.
Apesar da defesa pública da aliança, ela ressaltou que a decisão cabe ao partido.
Senado: Fátima aposta em Samanda e Rafael Motta
Na disputa pelo Senado, Fátima afirmou que Samanda Alves (PT) deve crescer à medida que o eleitorado compreender que ela ocupa a vaga que seria da própria governadora na chapa.
“Samanda é Fátima”, disse.
De acordo com a governadora, a vaga pertencia ao PT e, com sua decisão de não disputar o Senado, o partido escolheu Samanda como nome de renovação. Fátima afirmou ter orgulho da renovação geracional do PT no Rio Grande do Norte, especialmente por ser conduzida por mulheres.
Ela citou Samanda Alves, Natália Bonavides, Isolda Dantas, Divaneide Basílio, Brisa Bracchi e Marleide Cunha como exemplos desse processo. A governadora também disse acreditar que Natália Bonavides será novamente a deputada federal mais votada do Estado.
Sobre Rafael Motta (PDT), Fátima afirmou que ele também integra o “time de Lula” no RN. Segundo ela, o PDT reivindicou participação na chapa majoritária, e Rafael disputará a outra vaga ao Senado ao lado de Samanda. Para a governadora, a composição tem coerência política e programática com o projeto nacional liderado por Lula.
Lula, obras e restrição eleitoral
Fátima afirmou que o apoio de Lula aos candidatos governistas no Rio Grande do Norte é “inquestionável” e disse que o presidente deseja vir ao Estado ainda em junho. Segundo ela, Lula mandou recado dizendo que quer visitar o túnel Major Sales, obra ligada à conclusão da transposição das águas do São Francisco no RN.
A governadora disse que conversa com a Casa Civil e com a ministra Miriam Belchior para tentar viabilizar a agenda antes do período de restrição eleitoral.
Entre as obras que podem entrar no roteiro, Fátima citou o túnel Major Sales, o ramal Apodi-Mossoró, o Hospital Metropolitano, a duplicação da BR-304 e a conclusão da Reta Tabajara.
A governadora destacou o túnel Major Sales como uma obra de R$ 1,6 bilhão. Segundo ela, a importância maior do empreendimento não está no valor financeiro, mas no impacto humano e social de garantir segurança hídrica ao povo do Rio Grande do Norte.
Fátima afirmou que a chegada das águas do São Francisco beneficiará regiões como Pau dos Ferros, Apodi e Mossoró.
Na saúde, ela apontou o Hospital Metropolitano como um dos principais legados de sua gestão. Segundo a governadora, a unidade terá 350 leitos, investimento de R$ 200 milhões e perfil voltado para urgência e emergência em trauma, com objetivo de desafogar o Hospital Walfredo Gurgel.
Fátima disse que deixará dinheiro em conta para que Cadu, caso seja eleito, conclua a obra até o fim de 2027 e coloque o hospital em funcionamento pleno.
A governadora também citou a reforma do Hospital Walfredo Gurgel, afirmando que os trabalhos estão em andamento. Segundo ela, a unidade já não possui condições adequadas para atender a população atual, muito maior do que a existente quando o hospital foi construído.
Na infraestrutura rodoviária, Fátima mencionou a duplicação da BR-304, com trecho de Assú a Mossoró em curso e outro de Macaíba a Riachuelo. Também citou a Reta Tabajara, afirmando que os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro não concluíram a obra. Segundo ela, no governo Lula já foram entregues mais de 14 quilômetros, restando cerca de 2,5 quilômetros na travessia urbana.
Disputa no RN entra em fase de definição de palanques
Ao final da entrevista, Fátima disse que a chapa completa do grupo governista segue em construção e que a definição deve avançar em junho ou até julho. A governadora afirmou que o “time está em campo” e voltou a demonstrar confiança na união da base em torno de Cadu Xavier, Samanda Alves, Rafael Motta e Lula.
A entrevista mostrou uma governadora tentando cumprir três movimentos ao mesmo tempo: enquadrar Allyson como candidato apoiado por forças tradicionais, proteger Cadu como nome técnico e de continuidade, e organizar o palanque governista antes da entrada mais intensa do calendário eleitoral.
Nesse desenho, Fátima tenta transformar a eleição estadual em uma disputa de narrativa: renovação apresentada por Allyson contra renovação contestada pela governadora; continuidade administrativa defendida pelo PT contra o que ela chama de retorno ao passado; e um palanque governista que aposta na presença de Lula como elemento decisivo para consolidar a candidatura de Cadu.
