Resumo da Notícia
A disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte ganhou um eixo que vai além de alianças e nomes: a capacidade de administrar dinheiro público. Em entrevista à rádio 96 FM, o pré-candidato Allyson Bezerra (União) tentou transformar a situação fiscal de Mossoró em vitrine política e, ao mesmo tempo, em contraste direto com adversários que também se movimentam para 2026.
O argumento usado por ele foi a nota A de Mossoró na Capag, indicador do Tesouro Nacional que mede a capacidade de pagamento de estados e municípios. Segundo Allyson, enquanto o município alcançou a classificação máxima durante sua gestão, Natal e o Governo do Estado aparecem com nota C.
A comparação atinge dois nomes da disputa estadual: Álvaro Dias (PL), ex-prefeito de Natal, e Cadu Xavier (PT), ex-secretário estadual da Fazenda. Allyson tratou o tema fiscal como uma das linhas centrais da eleição e afirmou que o Rio Grande do Norte perdeu capacidade de investimento por falta de organização financeira e administrativa.
“Nós entregamos uma gestão reconhecidamente de entregas, uma gestão de resultados”, afirmou Allyson.
Na entrevista, o ex-prefeito disse ter assumido Mossoró com um conjunto de pendências que, segundo ele, travava a prefeitura: 13º salário atrasado, débito previdenciário de R$ 233 milhões, INSS em atraso, prestadores de serviço sem pagamento, cerca de R$ 90 milhões em restos a pagar e “uma cidade afundada em dívidas”. Cinco anos depois, afirmou, Mossoró passou a figurar com nota A na Capag.
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O que a Capag mede
A Capag é a sigla para Capacidade de Pagamento. O indicador leva em conta três critérios: endividamento, poupança corrente e liquidez.
Na prática, a nota ajuda a medir se um estado ou município tem condições de contratar operações de crédito com garantia da União. Entes com notas A ou B costumam ter acesso mais favorável a financiamentos com aval federal. Já notas C ou D indicam pior situação fiscal e maior dificuldade para obter crédito nessas condições.
Foi esse ponto que Allyson explorou para defender a tese de que sua experiência em Mossoró poderia ser levada ao Governo do Estado.
“Mossoró é nota A na capacidade de pagamento. O que é isso? É a prova de que é possível fazer uma organização financeira, fiscal, choque de gestão que eu defendo muito firme”, declarou.
A fala reforça uma linha já adotada por Allyson em outras entrevistas: a de que o Estado precisa recuperar “credibilidade” para voltar a investir, buscar financiamento e executar grandes obras.
Natal e Governo do RN entraram na comparação
Allyson não citou a Capag apenas como dado administrativo. Ele usou o indicador para estabelecer comparação política.
Ao falar de Natal, associou a nota C da capital à gestão de Álvaro Dias.
“Se você for buscar a cidade de Natal, que teve a administração de um desses pré-candidatos, Natal está com nota C na Capag”, disse.
O pré-candidato também afirmou que a capital teria ficado com dívidas e prestadores sem receber. Como exemplo, citou o cantor Beto Barbosa, que, segundo o próprio, teria feito uma apresentação e não recebido.
Depois, Allyson levou a comparação para o Governo do Estado, mirando a passagem de Cadu Xavier pela área fiscal.
“Se você for olhar o Estado do Rio Grande do Norte, que o atual secretário de Finanças é também um desses pré-candidatos ao governo, o Estado do Rio Grande do Norte tem nota C na capacidade de pagamento”, afirmou.
Segundo Allyson, o RN enfrenta uma crise “fiscal, financeira e administrativa”. Ele também citou um levantamento da XP para dizer que o problema aparece de forma “nítida” nos números recentes.
Dívida de Mossoró virou contraponto
A tentativa de apresentar a nota A como símbolo de eficiência não passou sem questionamento. Durante a própria entrevista, Allyson foi confrontado com relatórios do Tribunal de Contas do Estado que apontariam crescimento da dívida de Mossoró para um patamar próximo de R$ 700 milhões.
O pré-candidato respondeu que é preciso diferenciar dívida consolidada de dívida líquida. Segundo ele, ao deixar a prefeitura, havia entre R$ 320 milhões e R$ 330 milhões em caixa, em fontes diversas, o que reduziria o peso efetivo da dívida.
Allyson também afirmou que parte do aumento formal da dívida decorre da inscrição de débitos antigos, especialmente previdenciários. De acordo com ele, esses valores não estavam devidamente apresentados aos órgãos de controle quando assumiu a gestão.
“Eu encontrei R$ 233 milhões de dívida da Previdência. Boa parte dessa dívida não estava apresentada aos órgãos de controle. Nós apresentamos, parcelamos e começamos a cumprir”, afirmou.
O ponto é sensível porque a pré-campanha de Allyson aposta justamente na imagem de gestor capaz de reorganizar contas. Ao mesmo tempo, adversários podem tentar deslocar o debate para o tamanho da dívida municipal e para a forma como esses números são interpretados.
Operação Mederi e controle da gestão
Outro tema levado à entrevista foi a Operação Mederi, da Polícia Federal, que investigou suspeitas de irregularidades em contratos da saúde em Mossoró.
Allyson negou ter perdido o controle da administração. Segundo ele, controle de gestão significa criar sistemas, garantir transparência e acompanhar a execução das políticas públicas.
O pré-candidato afirmou que, se alguém “na ponta” cometeu ato falho ou desonesto, deve responder por isso, independentemente do cargo.
“Tem que pagar, sim. Isso vale para o gestor máximo, isso vale para os secretários, isso vale para quem está lá na base”, declarou.
Ele disse confiar nos órgãos de controle e afirmou ter ficado tranquilo com a atuação da Polícia Federal, sustentando que sua consciência indicaria que a gestão adotou medidas de transparência e cuidado com o dinheiro público.
No fim, o recado político ficou claro: Allyson quer fazer da comparação entre Mossoró nota A e Natal e Governo do RN nota C uma espécie de resumo de sua pré-candidatura. Para ele, o maior gargalo do Rio Grande do Norte é financeiro, fiscal e administrativo.
