Inaugurado em 2024, Hospital Municipal de Natal ainda não atende pacientes

A unidade foi inaugurada no fim da gestão Álvaro Dias, mas ainda não entrou em funcionamento porque pendências estruturais impediram a abertura prevista inicialmente para os primeiros meses de 2025.
Hospital Municipal de Natal
Hospital Municipal de Natal - Crédito: Elpídio Júnior

O Hospital Municipal São Padre Pio, em Cidade Satélite, na Zona Sul de Natal, deve começar a receber os primeiros pacientes em agosto, segundo nova previsão da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Se o prazo for cumprido, a unidade iniciará os atendimentos cerca de 20 meses depois da inauguração oficial, feita em 30 de dezembro de 2024, no fim da gestão do ex-prefeito Álvaro Dias (PL).

A informação recoloca no centro do debate uma contradição que acompanha o hospital desde a entrega simbólica: a cidade recebeu uma unidade apresentada como uma das maiores obras da saúde municipal, mas que ainda não entrou em funcionamento. A promessa agora é de abertura gradual, com acolhimentos regulados por encaminhamentos de unidades da rede municipal.

Segundo a SMS, a obra está em fase final de conclusão. A Prefeitura afirma que precisou antecipar serviços previstos inicialmente para a segunda etapa do projeto, entre eles a construção de dois centros cirúrgicos que atenderão todo o complexo hospitalar. A medida foi adotada para viabilizar o início da operação da primeira fase.

Hospital foi inaugurado, mas ainda não recebeu pacientes

O Hospital Municipal de Natal foi inaugurado oficialmente em 30 de dezembro de 2024, nos últimos dias da gestão Álvaro Dias. A previsão inicial era de que a unidade começasse a operar nos primeiros meses de 2025, mas pendências estruturais impediram a abertura.

Na prática, o equipamento passou todo o ano de 2025 e chegou a junho de 2026 sem funcionar para a população. A nova expectativa da SMS é que os primeiros atendimentos ocorram em agosto, em uma entrada gradual na rede pública de saúde de Natal.

A primeira etapa do hospital conta com 90 leitos de enfermaria e 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A segunda fase prevê ampliação da capacidade, com novos leitos, maternidade e centro cirúrgico completo. Quando estiver totalmente concluído, o complexo deverá ter 266 leitos, sendo 40 destinados a UTIs neonatal, pediátrica e geral.

A proposta é reduzir a sobrecarga nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos demais prontos-socorros da capital. Em pleno funcionamento, a unidade deverá oferecer pronto-atendimento, maternidade, especialidades médicas e diagnóstico por imagem.

Estrutura existe, mas ainda faltam respostas sobre gestão e equipes

A estrutura do hospital já conta com farmácia, centro de diagnóstico por imagem, lavanderia e cozinha instalados. Ainda assim, pontos essenciais para a abertura continuam sem detalhamento público.

A Prefeitura ainda não definiu o modelo de gestão da unidade nem apresentou um plano de contratação de pessoal. Também não há explicação oficial sobre uma possível transferência de equipes e serviços de outras unidades da rede municipal, como o Hospital dos Pescadores e a Maternidade Araken Pinto.

Segundo a SMS, a abertura depende da conclusão da instalação dos equipamentos e da formação das equipes multiprofissionais, incluindo médicos, enfermeiros e profissionais de apoio.

Esse é o ponto que separa uma inauguração de uma entrega real. Para a população, o que importa não é apenas a existência da estrutura física, mas a porta aberta, equipe escalada, leito regulado, serviço funcionando e atendimento acontecendo.

Para concluir a primeira etapa e comprar os equipamentos necessários ao funcionamento, a Prefeitura assinou em janeiro deste ano um novo contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal.

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O empréstimo, no valor de R$ 190 milhões, foi viabilizado por meio do Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (Finisa). Segundo a gestão municipal, os recursos serão usados na finalização das obras e na estruturação operacional do hospital.

O investimento total previsto nas duas etapas é estimado em R$ 188 milhões. No histórico do projeto, a Prefeitura já havia informado, em fevereiro de 2025, que o primeiro bloco tinha sido entregue com 100 leitos prontos, mas ainda sem funcionamento. Na ocasião, o investimento informado para a obra era de R$ 140 milhões.

Álvaro Dias defende entrega do hospital

Questionado sobre o fato de o hospital ter sido inaugurado no fim de sua administração e ainda não receber pacientes em junho de 2026, o ex-prefeito Álvaro Dias defendeu a obra e disse que entregou a estrutura física da unidade.

Nós entregamos a obra física do Hospital Municipal”, afirmou. “Nós entregamos a parte física estrutural da obra do Hospital Municipal. Ela estava concluída”, disse.

A declaração foi dada nesta terça-feira (9), durante entrevista ao Meio Dia RN, da 96 FM. Álvaro rejeitou a interpretação de que o hospital tenha sido entregue sem condições estruturais e afirmou que a atual gestão, comandada por Paulinho Freire (União Brasil), decidiu ampliar a capacidade do equipamento antes de colocá-lo em operação.

O prefeito Paulinho Freire resolveu ampliar, que eu concordo até com a ampliação que ele está fazendo. Acho importante. Ele está instalando UTI, vagas de UTI, está instalando dois centros cirúrgicos que vão funcionar plenamente”, declarou.

Perguntado se a falta de funcionamento seria culpa do atual prefeito, Álvaro respondeu: “Não é culpa de Paulinho”.

Álvaro também classificou o hospital como a obra da qual mais se orgulha e como o maior investimento em saúde pública já feito no Rio Grande do Norte.

O Hospital Municipal é o maior investimento em saúde pública da história do Rio Grande do Norte”, disse. “Eu desafio: encontre, procure qual foi o investimento maior que já foi feito na história do Rio Grande do Norte do que o do Hospital Municipal”, afirmou.

O ex-prefeito também defendeu que a unidade, quando entrar em funcionamento, terá impacto direto na rede pública de Natal.

É um hospital que vai desafogar a saúde pública, vai desafogar as UPAs, vai regularizar os atendimentos, os internamentos na cidade de Natal, vai ampliar de uma forma significativa a possibilidade de internação e de leitos hospitalares na cidade de Natal”, declarou.

Para Álvaro, as críticas não reduzem a importância da obra. “Nada do que se faça, nada do que se diga, críticas que possam vir de onde vierem, vão desmerecer essa obra”, afirmou.

Ele acrescentou que o hospital será um dos principais legados de sua administração. “É a obra da qual eu mais me orgulho de ter tido a coragem, de ter tido a vontade, de ter tido a decisão e a firmeza de fazer essa obra”, declarou. “É uma obra que será um dos grandes legados que nós vamos deixar na história da cidade de Natal e do Rio Grande do Norte.”

O desafio agora é transformar prédio em atendimento

A defesa política da obra não elimina o problema central: o Hospital Municipal São Padre Pio foi inaugurado em dezembro de 2024, mas ainda não funciona para os pacientes. A nova previsão de agosto cria uma expectativa concreta, mas também aumenta a cobrança por respostas sobre equipe, gestão, equipamentos e cronograma de abertura real.

A unidade pode, de fato, ampliar a capacidade hospitalar de Natal e reduzir a pressão sobre UPAs e prontos-socorros. Mas, para isso, precisa deixar de ser apenas uma estrutura entregue oficialmente e passar a operar dentro da rede municipal.

O teste da gestão não será apenas concluir obras ou instalar equipamentos. Será fazer o hospital funcionar com regularidade, equipe suficiente, fluxo definido e atendimento capaz de responder à demanda que há anos pressiona a saúde pública da capital.