Do VLT à Jerônimo Câmara: o legado incompleto da Copa de 2014 em Natal

A capital recebeu o Mundial, ganhou uma arena moderna e entrou no circuito internacional do futebol por algumas semanas. Porém, a parte mais importante para o cotidiano da população — mobilidade, drenagem, integração metropolitana e infraestrutura urbana — não avançou na mesma velocidade do discurso oficial da época.
Avenida Jerônimo Câmara
Avenida Jerônimo Câmara - Crédito: Portal N10

Doze anos depois da Copa do Mundo de 2014, Natal ainda convive com intervenções anunciadas no pacote de preparação para o Mundial que não foram concluídas, foram alteradas ou simplesmente ficaram pelo caminho. O caso expõe um problema que vai além do atraso de uma obra específica: parte das promessas vendidas como legado de mobilidade e infraestrutura para a capital potiguar não chegou ao cidadão como foi apresentada.

Entre os exemplos estão a macrodrenagem da Avenida Jerônimo Câmara, iniciada em 2013 e ainda em andamento, a expansão do sistema de VLT na Região Metropolitana de Natal, que foi abandonada, e a reestruturação da Avenida Engenheiro Roberto Freire, que previa túneis, viadutos, ciclovias e novas passarelas, mas não saiu do papel como previsto.

A Arena das Dunas, hoje gerida pela iniciativa privada, acabou se tornando o símbolo mais visível daquele período. Mas o conjunto de intervenções anunciado para preparar Natal para o Mundial era muito maior. O pacote previa obras de mobilidade urbana e infraestrutura estimadas em cerca de R$ 6 bilhões. Passada mais de uma década, o balanço é incômodo: a cidade ainda lida com promessas incompletas e projetos que perderam forma, prazo ou prioridade.

Macrodrenagem da Jerônimo Câmara já soma cerca de R$ 200 milhões

A obra de macrodrenagem da Avenida Jerônimo Câmara é um dos principais exemplos de intervenção que atravessou governos, acumulou atrasos e ainda não foi entregue. Iniciada em 2013, a obra prevê quase cinco quilômetros de tubulações para integrar a drenagem das zonas Oeste e Sul de Natal.

O investimento já soma cerca de R$ 200 milhões. Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), a conclusão está prevista para setembro deste ano. A pasta informou ainda que os recursos necessários para finalizar a obra estão assegurados por meio do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal.

O problema é que a previsão atual chega depois de um histórico longo de paralisações e adiamentos. Uma obra anunciada no contexto da Copa de 2014, iniciada antes do Mundial e ainda pendente 12 anos depois, revela a distância entre o discurso de legado e a realidade enfrentada pela população.

VLT prometido para a Região Metropolitana foi abandonado

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Crédito: CBTU

Outra promessa associada ao pacote da Copa era a criação de um anel ferroviário de 56 quilômetros na Região Metropolitana de Natal. O projeto previa a expansão do sistema de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), incluindo uma ligação com o aeroporto.

A proposta, porém, nunca foi executada. Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), o projeto foi descontinuado por decisões tomadas pelo governo federal entre 2016 e 2022. A companhia informou que tenta incluir novamente a obra no Novo PAC.

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O abandono do projeto é um dos pontos mais sensíveis do balanço. A ligação ferroviária metropolitana poderia ter ampliado a mobilidade entre Natal, aeroporto e municípios turísticos do litoral. No lugar disso, o que ficou foi uma promessa sem execução e uma tentativa posterior de recolocar a obra na fila de investimentos federais.

Roberto Freire ficou sem túneis, viadutos e ciclovias prometidos

Na Zona Sul de Natal, a Avenida Engenheiro Roberto Freire também estava entre as intervenções previstas para o Mundial. O projeto original incluía túneis, viadutos, ciclovias e novas passarelas ao longo da via.

As mudanças, no entanto, não foram executadas conforme o planejamento inicial. A avenida continuou como uma das principais ligações da Zona Sul, especialmente em direção ao litoral turístico, mas sem receber o pacote de reestruturação prometido no contexto da Copa.

O caso da Roberto Freire ajuda a entender como parte do chamado legado foi se dissolvendo. Não se trata apenas de atraso, mas de alteração profunda entre o que foi anunciado e aquilo que a cidade efetivamente recebeu.

Pró-Transporte teve etapa concluída e nova fase prevista na Zona Norte

Na Zona Norte, as obras do Pró-Transporte começaram ainda em 2007, antes da Copa, mas também foram incorporadas ao conjunto de investimentos relacionados ao Mundial. Segundo a Secretaria de Estado da Infraestrutura (SIN), a etapa realizada na Avenida Moema Tinoco foi concluída em abril deste ano.

Agora, uma nova fase prevê a ligação entre o viaduto da Avenida das Fronteiras e a BR-101, passando pelo Gancho de Igapó. O investimento informado é de R$ 33 milhões.

De acordo com o Governo do Estado, a obra busca melhorar a mobilidade urbana na região e facilitar o acesso ao Aeroporto Internacional de Natal. Ainda assim, a inclusão do Pró-Transporte no balanço das obras relacionadas à Copa mostra como projetos de longa duração foram sendo associados ao Mundial, mesmo com cronogramas que ultrapassaram muito o período do evento.

O que ficou do legado prometido para Natal?

O caso das obras da Copa em Natal mostra que o problema não está apenas em uma obra inacabada, mas em um conjunto de promessas que, passados 12 anos, ainda exige prestação de contas. A capital recebeu o Mundial, ganhou uma arena moderna e entrou no circuito internacional do futebol por algumas semanas. Porém, a parte mais importante para o cotidiano da população — mobilidade, drenagem, integração metropolitana e infraestrutura urbana — não avançou na mesma velocidade do discurso oficial da época.

A macrodrenagem da Jerônimo Câmara ainda espera conclusão. O projeto do VLT metropolitano foi abandonado e agora tenta voltar ao planejamento federal. A Roberto Freire não recebeu as intervenções estruturais previstas. O Pró-Transporte segue em etapas, com nova fase prometida para a Zona Norte.

O balanço é claro: o legado urbano da Copa em Natal continua incompleto. E, quando uma promessa pública atravessa mais de uma década sem ser plenamente entregue, a pergunta deixa de ser apenas quando a obra termina. Passa a ser também quem responde pelo tempo perdido, pelo dinheiro já investido e pela diferença entre o que foi anunciado e o que chegou à cidade.

Situação das principais obras citadas

Obra ou projetoSituação informada
Macrodrenagem da Avenida Jerônimo CâmaraIniciada em 2013, ainda em andamento, com conclusão prevista para setembro deste ano
Expansão do VLT na Região MetropolitanaProjeto abandonado; CBTU tenta incluir novamente no Novo PAC
Reestruturação da Avenida Engenheiro Roberto FreireProjeto original previa túneis, viadutos, ciclovias e passarelas, mas mudanças não foram executadas
Pró-Transporte na Zona NorteEtapa da Avenida Moema Tinoco concluída em abril deste ano; nova fase prevê ligação entre Avenida das Fronteiras e BR-101
Arena das DunasPrincipal obra visível do período, atualmente gerida pela iniciativa privada