O pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) afirmou que a engorda da praia de Ponta Negra, em Natal, teve falhas graves de execução e apontou a drenagem como o principal problema da intervenção. Em vídeo publicado nas redes sociais, o ex-prefeito de Mossoró disse defender a ampliação da faixa de areia, mas criticou a forma como a obra foi conduzida durante a gestão do ex-prefeito Álvaro Dias (PL).
A fala de Allyson tenta separar a defesa da engorda, como solução para a praia, das críticas ao planejamento e à execução da obra. Segundo ele, Ponta Negra, principal cartão-postal turístico do Rio Grande do Norte, passou a aparecer nacionalmente associada a alagamentos, lama e questionamentos ambientais.
“Como engenheiro civil que sou e como cidadão potiguar, eu digo isso com muita tristeza, porque o problema nunca foi a engorda da faixa de areia. A engorda da praia é importante sim, e eu a defendo. O problema foi a forma irresponsável como fizeram”, declarou.
A obra teve custo superior a R$ 100 milhões. Para Allyson, a intervenção avançou sem que o sistema de drenagem estivesse devidamente resolvido, ponto que, segundo ele, deveria ter sido tratado antes da colocação da areia.
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“Drenagem não é detalhe. Numa obra como essa, é o básico da engenharia. Antes de colocar areia, você precisa resolver para onde a água vai”, afirmou.
No vídeo, Allyson buscou deixar claro que não se opõe à engorda da praia. A crítica foi direcionada ao modo como a intervenção saiu do papel. A avaliação do pré-candidato é que a falha de drenagem comprometeu a imagem da obra e abriu espaço para problemas que poderiam ter sido evitados com planejamento técnico.
O ponto é sensível porque Ponta Negra tem peso turístico, econômico e simbólico para Natal e para o Rio Grande do Norte. Ao dizer que o problema não foi a concepção da engorda, mas a sequência de decisões tomadas antes e durante a execução, Allyson tenta colocar o debate no campo da engenharia, da transparência e da responsabilidade administrativa.
A fala também tem peso político. A obra foi executada durante a gestão de Álvaro Dias, que também é pré-candidato ao Governo. Ao criticar a condução da intervenção, Allyson amplia a disputa para além do resultado físico da praia e mira diretamente a capacidade de gestão do adversário.
MPF cobrou medidas após alagamentos na área da engorda

Allyson relacionou suas críticas a questionamentos feitos por órgãos de controle. Ele citou a atuação do Ministério Público Federal (MPF), que passou a cobrar obras emergenciais e a reestruturação do sistema de drenagem de Ponta Negra após episódios de alagamento na área da engorda.
O órgão apontou problemas como tubulações sem função, galerias bloqueadas, ineficiência de dissipadores e risco de agravamento da erosão no entorno do Morro do Careca.
O pré-candidato usou esses pontos para afirmar que a perícia teria encontrado “drenagem falsa”. Na avaliação dele, a existência de tubulações sem função, galerias bloqueadas e acúmulo de água na areia mostra a gravidade da situação.
“Não se engana a natureza e, principalmente, não se engana o povo. Se não resolve, a natureza vai e cobra”, disse.
Relatório apontou redução de areia emersa, mas análise exige novos levantamentos
A fala de Allyson ocorre em meio a novos debates sobre o comportamento da areia usada na engorda. Relatório da Funpec apontou redução de 39,27% no volume de areia emersa entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
O trecho do Morro do Careca registrou a maior redução proporcional, com 51,87%. Na Via Costeira, a queda foi de 49,74%. Já na área central de Ponta Negra, a redução foi de 21,21%.
O próprio estudo ressalta, porém, uma limitação importante: a análise considerou apenas a faixa acima da linha d’água. Por isso, levantamentos topobatimétricos são necessários para indicar se o material foi efetivamente perdido ou se foi redistribuído para áreas submersas.
Esse detalhe é central para evitar uma leitura simplificada dos números. A redução da areia visível na faixa seca não significa, por si só, perda total do material da intervenção. O ponto técnico é saber para onde a areia se deslocou e se esse comportamento estava previsto nos estudos da obra.
Prefeitura diz que 94% da areia permanece na área de intervenção
A Prefeitura de Natal sustenta que 94% da areia usada na engorda permanece na área de intervenção. A secretária municipal de Infraestrutura, Shirley Cavalcanti, afirmou que parte do material que deixou a faixa seca foi redistribuída para a região central da praia e para a área submersa usada por banhistas.
Segundo ela, a perda efetiva seria de 6%, percentual já previsto nos estudos ambientais. A secretária também afirmou que não há necessidade imediata de reposição de areia no Morro do Careca.
A posição da Prefeitura contrasta com a leitura crítica feita por Allyson. Enquanto o pré-candidato enfatiza os alagamentos, a drenagem e os questionamentos de órgãos de controle, a gestão municipal sustenta que o comportamento da areia permanece dentro do previsto e que a maior parte do material continua na área da obra.
Além do MPF, Allyson citou o Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo ele, o órgão abriu auditoria para apurar a execução da engorda de Ponta Negra.
O pré-candidato afirmou que o TCU apontou questionamentos sobre estudos técnicos, licenciamento e processo de contratação. Ele também mencionou o episódio da draga que, conforme sua fala, chegou a Natal, ficou parada e foi embora sem operar, gerando custos ao município.
A menção ao TCU reforça a tentativa de Allyson de enquadrar a discussão não apenas como problema ambiental ou urbanístico, mas também como questão de controle, planejamento e uso de recursos públicos.
Allyson diz que buscaria solução com Prefeitura, universidades e órgãos ambientais
Na parte final do vídeo, Allyson afirmou que, caso seja eleito governador, pretende atuar em conjunto com a Prefeitura de Natal, universidades, órgãos ambientais e técnicos para buscar uma solução para os problemas registrados em Ponta Negra.
Segundo ele, a intervenção precisa ser tratada com engenharia, transparência e responsabilidade. A fala tenta apresentar a crítica não apenas como ataque político, mas como defesa de uma correção técnica para a praia.
“Ponta Negra merece respeito. Natal merece respeito. E o Rio Grande do Norte merece voltar a sentir orgulho do que é nosso, do nosso patrimônio natural”, afirmou.
A discussão sobre a engorda deve continuar no centro do debate público porque envolve turismo, meio ambiente, infraestrutura urbana, aplicação de recursos e disputa política. Para Allyson, a obra expôs falhas de execução. Para a Prefeitura, os dados indicam que a maior parte da areia permanece na área prevista e que a perda efetiva está dentro do esperado.
