RN quer entrar na corrida bilionária dos data centers com energia limpa e cabos submarinos

Governo estadual estuda PPP, atração de conexões internacionais e apoio a benefícios no Confaz, mas ainda não há projeto contratado ou investimento confirmado.
Corredor interno de um data center moderno com racks de servidores iluminados em azul e cabos de rede organizados.
RN tenta virar rota de data centers em meio à explosão da inteligência artificial - Crédito: Portal N10

Resumo da Notícia

  • O Rio Grande do Norte estuda estratégias para atrair investimentos no setor de data centers, impulsionado pela expansão da inteligência artificial e computação em nuvem.
  • Os principais trunfos do estado são a grande oferta de energia eólica renovável e a localização geográfica estratégica, próxima à Europa e à África.
  • O governo estadual avalia a estruturação de uma parceria público-privada (PPP) para implantar o primeiro grande data center, que também atenderia órgãos públicos.
  • A atração de cabos submarinos internacionais e o apoio a incentivos fiscais no Confaz estão entre as medidas em análise pela comissão governamental.
  • Apesar dos planos e estudos em andamento, ainda não há projetos contratados ou investimentos confirmados para o estado.

O Rio Grande do Norte tenta entrar na disputa nacional por data centers, setor que ganhou força com a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e do processamento de grandes volumes de dados. A aposta do estado combina três ativos: energia renovável em abundância, posição geográfica favorável para conectividade internacional e disponibilidade de áreas para novos empreendimentos.

A estratégia foi apresentada pelo secretário estadual da Fazenda, Álvaro Luiz Bezerra, durante webinar promovido pela Brasscom sobre infraestrutura computacional e atração de investimentos para data centers. A Brasscom, associação que representa empresas de tecnologia da informação e comunicação, estima que o Brasil possa receber até US$ 92 bilhões em investimentos em infraestrutura computacional até 2031.

O número ajuda a explicar por que estados passaram a disputar espaço nesse mercado. A própria Brasscom avalia que a carga tributária ainda reduz a competitividade brasileira, especialmente quando comparada a outros países interessados em receber infraestrutura digital.

No caso potiguar, o governo criou uma comissão para estudar medidas que possam tornar o estado mais competitivo. Estão no radar a atração de cabos submarinos, a estruturação de uma parceria público-privada (PPP) para implantação de um data center e a defesa de incentivos tributários para o setor.

Nós estamos aqui com uma comissão criada no âmbito do Governo do Estado para poder pensar em todos os atrativos que o Estado precisa se adequar para possibilitar que nós tenhamos aqui grandes data centers instalados”, afirmou Bezerra.

Apesar da movimentação, o plano ainda está em fase de estudos e modelagem. Até agora, não há anúncio de projeto contratado nem investimento confirmado para o Rio Grande do Norte.

Energia é o principal trunfo do estado

A vantagem mais destacada pelo governo estadual é a oferta de energia. O Rio Grande do Norte é líder nacional em geração eólica e produz mais eletricidade do que consome.

Hoje nós produzimos quatro vezes mais energia do que o consumo interno do estado”, afirmou o secretário.

A discussão ganhou peso porque data centers exigem grande volume de energia elétrica, e a expansão da inteligência artificial ampliou a demanda mundial por capacidade computacional. Na avaliação de Bezerra, essa mudança aproxima definitivamente dois setores que antes eram tratados de forma mais separada.

A IA está criando uma relação nova entre energia e infraestrutura digital”, disse.

Para o governo estadual, regiões capazes de reunir energia limpa, conectividade e áreas disponíveis para expansão podem sair na frente na atração desses investimentos. O desafio é transformar essa vantagem potencial em projeto concreto, com modelo econômico, segurança regulatória e infraestrutura suficiente para operar em escala.

A Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Norte também apoia a aprovação de benefícios fiscais para data centers no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).

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O Rio Grande do Norte apoia todas as propostas de concessão de benefícios fiscais para data centers em pauta no Confaz”, afirmou Bezerra.

Para o secretário, a disputa não deve ser vista apenas como competição entre estados brasileiros. O setor opera em escala global, e o Brasil precisa oferecer condições próximas às de mercados concorrentes.

A gente não está falando de uma competitividade local. A gente está falando de uma competitividade mundial”, disse.

A posição converge com a avaliação da Brasscom. Durante o evento, a associação apontou que o custo de implantação de data centers no Brasil é entre 30% e 35% superior ao observado em mercados concorrentes. A tributação estadual, especialmente o ICMS, aparece como um dos fatores que pesam nessa conta.

As propostas discutidas no Confaz buscam reduzir a carga tributária sobre equipamentos e infraestrutura usados em data centers. O tema ganhou relevância porque a inteligência artificial elevou a corrida por energia, conectividade e capacidade de processamento.

Cabos submarinos entram na agenda potiguar

Além da energia, o Rio Grande do Norte quer ampliar sua presença na infraestrutura internacional de conectividade. Hoje, Fortaleza concentra a maior parte dos sistemas de cabos submarinos que conectam o Brasil a outros continentes, consolidando-se como um dos principais hubs digitais da América Latina.

O governo potiguar avalia que a localização do estado pode abrir espaço para novos projetos. O argumento é geográfico: o RN está no ponto do território brasileiro mais próximo da Europa e da África, característica já usada historicamente como vantagem logística e agora tratada como ativo para a economia digital.

Estamos trabalhando com uma comissão muito focada nisso para que a gente possa viabilizar também, aqui no Rio Grande do Norte, essa instalação de cabos submarinos”, afirmou Bezerra.

Ao comentar a possibilidade de novas conexões internacionais, o secretário resumiu a avaliação do governo: “É o local mais propício”, afirmou.

A atração de cabos submarinos seria estratégica porque data centers dependem não apenas de energia, mas também de baixa latência, redundância de rede e conexão eficiente com outros mercados.

PPP pode ser caminho para primeiro data center

Outra frente em estudo é a modelagem de uma PPP para viabilizar um primeiro grande data center no estado. A ideia avaliada pelo governo prevê que parte da capacidade computacional seja usada pelos próprios órgãos públicos estaduais.

Esse consumo inicial ajudaria a criar demanda para o empreendimento e poderia reduzir o risco econômico do projeto.

Estamos estudando a modelagem de uma PPP para destravar a atração de um primeiro grande data center para o estado”, afirmou Bezerra.

A proposta, porém, ainda não tem cronograma definido nem parceiros anunciados.

O movimento do Rio Grande do Norte ocorre em um momento em que a inteligência artificial redesenha a geografia da infraestrutura digital. Governos e empresas buscam locais com energia disponível, conectividade internacional, ambiente regulatório favorável e espaço para expansão.

O RN tenta se posicionar nessa disputa com base em vantagens reais, mas ainda precisa passar da vitrine para a execução. O próximo passo será transformar comissão, estudos, incentivos e modelagens em projetos capazes de inserir o estado no mapa brasileiro dos data centers.