Resumo da Notícia
O Rio Grande do Norte tenta entrar na disputa nacional por data centers, setor que ganhou força com a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e do processamento de grandes volumes de dados. A aposta do estado combina três ativos: energia renovável em abundância, posição geográfica favorável para conectividade internacional e disponibilidade de áreas para novos empreendimentos.
A estratégia foi apresentada pelo secretário estadual da Fazenda, Álvaro Luiz Bezerra, durante webinar promovido pela Brasscom sobre infraestrutura computacional e atração de investimentos para data centers. A Brasscom, associação que representa empresas de tecnologia da informação e comunicação, estima que o Brasil possa receber até US$ 92 bilhões em investimentos em infraestrutura computacional até 2031.
O número ajuda a explicar por que estados passaram a disputar espaço nesse mercado. A própria Brasscom avalia que a carga tributária ainda reduz a competitividade brasileira, especialmente quando comparada a outros países interessados em receber infraestrutura digital.
No caso potiguar, o governo criou uma comissão para estudar medidas que possam tornar o estado mais competitivo. Estão no radar a atração de cabos submarinos, a estruturação de uma parceria público-privada (PPP) para implantação de um data center e a defesa de incentivos tributários para o setor.
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“Nós estamos aqui com uma comissão criada no âmbito do Governo do Estado para poder pensar em todos os atrativos que o Estado precisa se adequar para possibilitar que nós tenhamos aqui grandes data centers instalados”, afirmou Bezerra.
Apesar da movimentação, o plano ainda está em fase de estudos e modelagem. Até agora, não há anúncio de projeto contratado nem investimento confirmado para o Rio Grande do Norte.
Energia é o principal trunfo do estado
A vantagem mais destacada pelo governo estadual é a oferta de energia. O Rio Grande do Norte é líder nacional em geração eólica e produz mais eletricidade do que consome.
“Hoje nós produzimos quatro vezes mais energia do que o consumo interno do estado”, afirmou o secretário.
A discussão ganhou peso porque data centers exigem grande volume de energia elétrica, e a expansão da inteligência artificial ampliou a demanda mundial por capacidade computacional. Na avaliação de Bezerra, essa mudança aproxima definitivamente dois setores que antes eram tratados de forma mais separada.
“A IA está criando uma relação nova entre energia e infraestrutura digital”, disse.
Para o governo estadual, regiões capazes de reunir energia limpa, conectividade e áreas disponíveis para expansão podem sair na frente na atração desses investimentos. O desafio é transformar essa vantagem potencial em projeto concreto, com modelo econômico, segurança regulatória e infraestrutura suficiente para operar em escala.
A Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Norte também apoia a aprovação de benefícios fiscais para data centers no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).
“O Rio Grande do Norte apoia todas as propostas de concessão de benefícios fiscais para data centers em pauta no Confaz”, afirmou Bezerra.
Para o secretário, a disputa não deve ser vista apenas como competição entre estados brasileiros. O setor opera em escala global, e o Brasil precisa oferecer condições próximas às de mercados concorrentes.
“A gente não está falando de uma competitividade local. A gente está falando de uma competitividade mundial”, disse.
A posição converge com a avaliação da Brasscom. Durante o evento, a associação apontou que o custo de implantação de data centers no Brasil é entre 30% e 35% superior ao observado em mercados concorrentes. A tributação estadual, especialmente o ICMS, aparece como um dos fatores que pesam nessa conta.
As propostas discutidas no Confaz buscam reduzir a carga tributária sobre equipamentos e infraestrutura usados em data centers. O tema ganhou relevância porque a inteligência artificial elevou a corrida por energia, conectividade e capacidade de processamento.
Cabos submarinos entram na agenda potiguar
Além da energia, o Rio Grande do Norte quer ampliar sua presença na infraestrutura internacional de conectividade. Hoje, Fortaleza concentra a maior parte dos sistemas de cabos submarinos que conectam o Brasil a outros continentes, consolidando-se como um dos principais hubs digitais da América Latina.
O governo potiguar avalia que a localização do estado pode abrir espaço para novos projetos. O argumento é geográfico: o RN está no ponto do território brasileiro mais próximo da Europa e da África, característica já usada historicamente como vantagem logística e agora tratada como ativo para a economia digital.
“Estamos trabalhando com uma comissão muito focada nisso para que a gente possa viabilizar também, aqui no Rio Grande do Norte, essa instalação de cabos submarinos”, afirmou Bezerra.
Ao comentar a possibilidade de novas conexões internacionais, o secretário resumiu a avaliação do governo: “É o local mais propício”, afirmou.
A atração de cabos submarinos seria estratégica porque data centers dependem não apenas de energia, mas também de baixa latência, redundância de rede e conexão eficiente com outros mercados.
PPP pode ser caminho para primeiro data center
Outra frente em estudo é a modelagem de uma PPP para viabilizar um primeiro grande data center no estado. A ideia avaliada pelo governo prevê que parte da capacidade computacional seja usada pelos próprios órgãos públicos estaduais.
Esse consumo inicial ajudaria a criar demanda para o empreendimento e poderia reduzir o risco econômico do projeto.
“Estamos estudando a modelagem de uma PPP para destravar a atração de um primeiro grande data center para o estado”, afirmou Bezerra.
A proposta, porém, ainda não tem cronograma definido nem parceiros anunciados.
O movimento do Rio Grande do Norte ocorre em um momento em que a inteligência artificial redesenha a geografia da infraestrutura digital. Governos e empresas buscam locais com energia disponível, conectividade internacional, ambiente regulatório favorável e espaço para expansão.
O RN tenta se posicionar nessa disputa com base em vantagens reais, mas ainda precisa passar da vitrine para a execução. O próximo passo será transformar comissão, estudos, incentivos e modelagens em projetos capazes de inserir o estado no mapa brasileiro dos data centers.
